Adolescência: entre não ser mais criança e ainda não ser adulto.
- 10 de jun.
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O período da adolescência é marcado por questões complexas e desafios. O jovem vivencia transformações biológicas, psicológicas e sociais. Para além das mudanças corporais, está em jogo algo mais profundo: a construção de quem se é, de seus desejos, valores, aspirações e formas de se relacionar com o mundo.
Nesse tempo de transição, em que o adolescente já não é mais criança, mas ainda não ocupa plenamente o lugar de adulto, existe um “entre”, um espaço que pode gerar inseguranças, dúvidas e busca.
A própria origem da palavra “adolescência” remete a esse movimento. Derivada de adolescere e addolescere, carrega tanto o sentido de crescer e se desenvolver, quanto o de adoecer. A ideia de crise aparece, então, como constitutiva desse momento do desenvolvimento.
Crise aqui não deve ser entendida apenas como algo negativo. Trata-se de um período de ruptura, mudança e necessidade de reorganização psíquica, em que referências antigas já não sustentam mais por completo, enquanto novas ainda estão em elaboração.
Essa experiência não acontece isoladamente. A adolescência também pode ser compreendida como uma construção social. Seu reconhecimento como uma fase distinta da infância e da vida adulta é relativamente recente, cerca de um século. Antes disso, não era vivida nem nomeada como hoje.
Nesse sentido, trata-se de uma produção moderna a ideia de manter o jovem protegido como criança e, ao mesmo tempo, com exigências de adulto. E esse cenário se intensifica com os atravessamentos contemporâneos: excesso de informação, múltiplas possibilidades de futuro, referências adultas cada vez mais difusas e a comparação constante, especialmente nas redes.
O adolescente tem acesso a tudo, mas nem sempre dispõe de recursos para organizar isso. Emergem perguntas fundamentais: quem eu sou? O que esperam de mim? O que eu quero?
E surgem outras igualmente importantes: como fazer escolhas? Como construir projetos? Como se preparar para um futuro que parece, muitas vezes, incerto?
A adolescência pede tempo para elaborar essas questões, construir respostas próprias e sustentar conflitos profundos. No entanto, o que frequentemente aparece é o oposto: urgência, ansiedade e pressão.
Especialmente quando entra o tema da escolha profissional.
O jovem passa a ser convocado a decidir “o que vai ser” antes mesmo de conseguir sustentar questões anteriores. Exige-se decisão antes de sustentar o processo de elaboração.
Esse desalinhamento pode gerar dores importantes: medo de errar, insegurança e, muitas vezes, paralisia diante das escolhas. Essas dores não ficam restritas ao adolescente — atravessam a família e chegam à escola, aparecendo no cotidiano, nas conversas, nas dúvidas e nas demandas.
É nesse contexto que a orientação profissional ganha outro lugar. Mais do que ajudar a escolher uma profissão, trata-se de construir caminhos.
Um processo que auxilia o jovem a se situar no mundo, a elaborar quem é e a construir um projeto, entendido aqui como algo que articula escolhas, com estratégias e intencionalidade, na vida pessoal e profissional.
A orientação profissional busca integrar dimensões subjetivas e identitárias com aspectos mais concretos e operativos, organizando um percurso possível.
Vai além de decidir o que fazer. Envolve explorar a si mesmo, conhecer o mundo e se apropriar daquilo que faz sentido para cada um.
Muito mais do que perguntar “o que esse jovem vai escolher”, talvez seja importante perguntar: como estamos ajudando esses jovens a se descobrirem para, então, poderem escolher?
FONTES:A adolescência. Capítulo 4 | Autor: Contardo CalligarisOrientação vocacional e de carreira em contextos clínicos e educativos. Capítulo 1: Ser adolescente no século XXI | Autores: Ribeiro, M.A., Uvaldo, M., Fonçatti, G. et. al | Organizadora: Rosane S. Levenfus.




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